Exercícios do olhar

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

– Olha, agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo.

Corpo de Baile in Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa

 

Foto: Maureen Bisilliat – Extraindo o polvilho da mandioca, perto de Januária, MG, 1962-1966. Fonte: http://macariocampos.blogspot.com/2013/04/a-joao-guimaraes-rosa-fotografias-de.html#ixzz4OkT4fksR

Redes … mais um pouco

Apesar do conceito de rede social ter ganhado muito de sua notoriedade em tempos mais recentes, ele diz respeito a um fenômeno não tão novo assim. Afinal, desde os ajuntamentos ancestrais para a sobrevivência através de coletivos de caça, pesca e extrativismo, chegando até os ativismos contemporâneos, a organização social em redes sempre esteve presente na história humana, se caracterizando por ser o acionamento temporário de ‘nós’ das redes de relacionamentos que se voluntariam para a ação, de forma a viabilizar ou potencializar empreitadas por determinado propósito comum.

E sobre essa dinâmica das redes sociais, precisamos sublinhar, ainda que com os riscos de uma forma simplificada, três aspectos sobre os quais nossa experiência tem demonstrado que as chamadas redes sociais planejadas1 normalmente derrapam. E especificamos que esses são problemas das redes planejadas, porque a experiência também aponta para o fato de que no caso das redes sociais espontâneas2 esses três aspectos parecem ser condição sine qua non para seu acionamento.

O primeiro desses aspectos é a voluntariedade para a ação.

 “O que distingue a ação voluntária como categoria sociológica é a voluntariedade do vínculo social dentro do qual ela está inserida: a ação voluntária implica a adesão livre a uma forma de solidariedade coletiva e ao pertencimento a uma rede de relações da qual se participa por escolha. Outra característica é a gratuidade dos serviços oferecidos pela ação voluntária. Mas a gratuidade não diz respeito simplesmente ao fato de que não se tira benefícios econômicos diretos da própria ação. Na verdade, se tivermos, por exemplo, alguma ajuda voluntária e gratuita ao próprio vizinho para cultivar o jardim, essa ação é uma forma de solidariedade privada regulada por uma troca interpessoal. Para se falar de ação voluntária na gratuidade deve-se considerar a relação que liga os atores envolvidos na ação coletiva: a ação voluntária é caracterizada pelo fato de que os benefícios não constituem a base da relação ente os que dela participam, nem entre esses e os destinatários da ação.” (MELUCCI, 2001, p. 117)

 Muitas das redes sociais planejadas têm grandes dificuldades para se efetivarem como redes de fato, primeiramente, porque, em várias situações, a decisão de aderir ou não ao acionamento da rede não é efetivamente voluntária. Nestes casos, acabam entrando em cena variáveis coercitivas, que quase sempre não são explicitadas, empurrando para a rede mesmo aqueles que no fundo não desejam ou não têm interesse em participar da ação.

Além disso, em várias dessas redes planejadas o cimento das relações acionadas são os benefícios indiretos a serem alcançados e não os propósitos compartilhados e seus benefícios diretos. Não são raros os casos em que indivíduos se engajam em uma rede pelas possibilidades que os contatos ali gerados podem trazer consigo, deixando em segundo plano o que deveria ser o propósito primordial. Em verdade, todos fazemos isso em algumas das inúmeras redes nas quais estamos entrelaçados. O problema para uma rede social planejada surge quando a maior parte de seus nós apresenta-se nessa condição: focando-se nas conexões em si e não no propósito fundador, que deveria ser compartilhado e agregador.

E isso nos leva ao segundo aspecto.

O propósito (…) faz o papel de coordenação tradicionalmente desempenhado pelo comando e o controle centralizados. A força do propósito mantém a coesão entre os participantes (…), unifica elementos díspares, atuando como se fosse uma força centrífuga. O propósito substitui os adesivos tradicionais – por exemplo, a coerção hierárquica e as instruções escritas da burocracia (…). Diante de mudanças rápidas, os mecanismos tradicionais de controle causam tropeços. O propósito fornece contexto para a ação.” (LIPNACK & STAMPS, 1994, p. 45)

Quando o propósito de acionamento da rede não é compartilhado por todos, a rede corre o risco de se descaracterizar como tal. Seja pela falta de coesão, seja pela necessidade de se impor algum tipo de coerção hierárquica, a rede desaparece ou dá lugar a um outro tipo de organização, hierarquizada.

Por fim, o terceiro aspecto diz respeito ao caráter temporário do acionamento da rede. Como afirma Martinho (2003), as redes são estruturas que permanecem invisíveis boa parte do tempo e só se fazem perceber quando acionadas. Porém, quando esse acionamento persiste para além da superação do propósito inicial, ou a rede acionada perde coesão ou se reconfigura ou busca novos contextos de ação ou ainda pode caminhar para a institucionalização / hierarquização das relações. E estes mesmos desdobramentos podem acontecer caso o propósito de acionamento da rede seja, por outro lado, uma questão complexa, que não se resolve com uma ação pontual. Aliás, no que diz respeito às redes planejadas, operar com propósitos complexos é a regra.

Nesse caso, a sabedoria que surge das experiências acumuladas com as dinâmicas das redes sociais indica que o propósito complexo e abstrato seja decomposto em propósitos simples e concretos, tantos quantos forem necessários para acionar redes sociais repletas de significados.

Quando trabalhamos com os processos intrínsecos dos sistemas vivos, não temos de despender um excesso de energia para por a organização em movimento. Não há necessidade de empurrá-la, puxá-la ou forçá-la a mudar. O ponto central não é nem a força nem a energia: é o significado.” (CAPRA, 2002, p. 123)

Bibiografia

  • CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas – Ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix/Amana-Key, 2002.
  • LIPNACK, Jessica & STAMPS, Jeffrey. Rede de informações. São Paulo: Makron Books, 1994.
  • MARTINHO, Cássio. Redes Uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília : WWF-Brasil; 2003.
  • MELUCCI, Alberto. A invenção do presente. Petrópolis: Vozes, 2001.

1Em nosso entendimento, o que chamamos de redes sociais planejadas são aquelas redes pensadas, implementadas e acionadas geralmente por grupos ou movimentos sociais que atuam sobre questões mais complexas e que não se esvaziam com ações pontuais. Como exemplo temos as redes ambientalistas, redes de estudos acadêmicos, redes de mobilização política e social, etc.

2Em nosso entendimento, o que chamamos de redes sociais espontâneas são aquelas redes normalmente acionadas, muitas vezes sem qualquer tipo de idealização prévia, a partir de fatos ou temas emergentes que conseguem aglutinar esforços para ações pontuais. Como exemplo temos as mobilizações através das hashtags do Twitter (#iranelection, #forasarney, etc), as diversas mobilizações que surgem na blogosfera, mobilização para doação de sangue para um amigo ou parente, etc.

Sobre redes

A metáfora da máquina sempre caracterizou a sociedade industrial. Máquina como meio de fabricar um determinado produto, de atingir um determinado objetivo, de se chegar a um determinado fim. Um dos maiores símbolos da racionalização do tempo, da energia, do movimento.

Já na sociedade pós-industrial, as metáforas da máquina dão lugar às metáforas da rede.

Nesta época, quase tudo formado por um conjunto de elementos que se encontram dispersos geograficamente e que mantêm algum tipo de conexão é chamado de rede. São redes de lojas, redes de infraestrutura, redes de colaboradores (utilizado como eufemismo para designar empregados de uma empresa), redes de ensino, entre outras redes.

Esta concepção mais primária de rede, que leva em conta apenas a quantidade de elementos, sua dispersão espacial e interconexão, por vezes limita um entendimento mais abrangente sobre o conceito. Desse modo, muitos arranjos que strictu sensu não são redes, assim são chamados.

Rede é uma forma de organização, de auto-organização, um padrão altamente dinâmico de relações entre os elementos. Não há hierarquia na rede. Esta isonomia entre os elementos arranjados em rede são a base de uma auto-organização co-ordenada por todos.

Redes são multidirecionais, multidimensionais, não lineares, não-hierárquicas, abertas, dinâmicas. Não comportam, portanto, um centro, ou vários deles. E se não há centro, não há periferia.

Referências bibliográficas

  • CAPRA, Fritjof. A teia da vida – Uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix/Amana-Key, 2001.

  • _______________ . As conexões ocultas – Ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix/Amana-Key, 2002.

  • MARTINHO, Cássio. Redes Uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília : WWF-Brasil; 2003.

Habitando redes

Artigo publicado na Revista Temática, da UFPB …

Este artigo é fruto de pesquisas nas linhas de investigação do Centro de Pesquisas Atopos, da Escola de Comunicações e Artes da  Universidade de São Paulo (ECA/USP) sobre os aspectos teóricos das mídias digitais. Seu objetivo é analisar o impacto das transformações midiáticas na sociedade, em especial o impacto causado pelas novas tecnologias digitais sobre as formas de organização social, neste caso específico analisando a ascensão da organização em redes e suas implicações. Partindo de uma perspectiva que abandona a visão  instrumentalista das tecnologias midiáticas, passando a considerá-las como elementos ativos na forma como o homem se relaciona com o mundo.

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